sábado, 15 de junho de 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Encontro

Sai de si
Vem curar teu mal
Te transbordo em som
Poe juizo em mim
Teu olhar me tirou daqui
Ampliou meu ser
Quero um pouco mais
Não tudo
Pra gente não perder a graça no escuro
No fundo
Pode ser até pouquinho
Sendo só pra mim sim
Olhe só
Como a noite cresce em glória
E a distância traz
Nosso amanhecer
Deixa estar que o que for pra ser vigora
Eu sou tão feliz
Vamos dividir
Os sonhos
Que podem transformar o rumo da história
Vem logo
Que o tempo voa como eu
Quando penso em você

Já projetei ser 6

Tornar-se amor
em cada pedaço do corpo
esquecer caminhos, buscar novas desculpas
para esquecer velhos caminhos
saber que não dá, não tem como
mas ir cada vez mais longe
quase até onde não tem mais ar para voltar
todo momento buscar um momento
ir, fugir, não tem pra onde
Talvez seja sorte não encontrar
não ver flores
não ter ideias
você ir






quarta-feira, 12 de junho de 2013

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Prometo transformar

se
nem 
for
terra
se
trans
for 
mar

(Leminski)




Ainda o trem


você nunca vai saber
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade
pelo lado de dentro
como fazer de um verso
um objeto sujeito
como passar do presente
para o pretérito perfeito
nunca saber direito

você nunca vai saber
o que vem depois de sábado
quem sabe um século
muito mais lindo e mais sábio
quem sabe apenas
mais um domingo

você nunca vai saber
e isso é sabedoria
nada que valha a pena
a passagem pra pasárgada
xanadu ou shangrilá
quem sabe a chave
de um poema
e olha lá
(Leminski)

O trem

Era o tempo fora do tempo
Guardado em âmbar multicor
O tanto de sensações
Tão dobradas, tão azuis
Antigas mulheres dentro de mim
Sou eu por outros caminhos
todos os lados, do avesso, perfeito, humano
Era o tempo fora do tempo 
Somente antes do trem
A dança no abismo
Guardada em resina e esperando
Tem tempo que não paro para o trem!
Esse não pode ser o meu
Tão guardado, esperado
Ele iria saber e voltar e voltar e olhar
Como lidar com as suas dúvidas tão certas?
O tempo do trem fora do tempo
Tem tempo que não vem o trem
Magro, inseguro, tem tempo que não passa o tempo
Vem verde, vermelho, passa o verde e não vem o trem
Posso pedir para ficar, para mudar, mas não passa 
Que cheiro tem esse trem?


sábado, 8 de junho de 2013

Saudação da Saudade

Fazia tempo que eu não sentia tanta saudade. 
Talvez não ter vivido nada seja a causa de tanto desespero. 



Minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida

Aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz

Ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento

Aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim

daí vá ficando por aí

Se por acaso a gente se cruzasse
ia ser um caso sério 
você ia rir até amanhecer 
eu ia ir até acontecer 
de dia um improviso 
de noite uma farra
a gente ia viver com garra
eu ia tirar de ouvido 
todos os sentidos
ia ser tão divertido 
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia a mesma folia 
até deixar de ser poesia 
e virar tédio 
e nem o meu melhor vestido era remédio 
daí vá ficando por aí 
eu vou ficando por aqui 
evitando 
desviando sempre 
pensando se por acaso a gente se cruzasse...
(Alice Ruiz)



Milágrimas

Alice Ruiz e Itamar Assumpção são maravilhosos! Essa versão caseira-com-cachorro-mulher-grávida-e-pé-no-chão ficou uma coisa muito podia-ser-lá-em-casa.  Saudades de um bom sarau! Será que nunca mais?


Milágrimas

em caso de dor ponha gelo
mude o corte de cabelo
mude como modelo
vá ao cinema dê um sorriso
ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
se amargo foi já ter sido
troque já esse vestido
troque o padrão do tecido
saia do sério deixe os critérios
siga todos os sentidos
faça fazer sentido
a cada mil lágrimas sai um milagre
caso de tristeza vire a mesa
coma só a sobremesa coma somente a cereja
jogue para cima faça cena
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre
mas se apesar de banal
chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal
sinta o gosto do sal
gota a gota, uma a uma
duas três dez cem mil lágrimas
sinta o milagre
a cada mil lágrimas sai um milagre
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre
(Alice Ruiz e Itamar Assumpção)

À La Claire Fontaine

Il y a longtemps que je t'aime
Jamais je ne t'oublierai<3

Suerte

Alguém que eu gosto muito, anda errando demais e eu não posso fazer nada.
Só me resta desejar...Suerte!



Sempre assim

"O sofrimento acompanha sempre uma inteligência elevada e um coração profundo. Os homens verdadeiramente grandes devem, parece-me, experimentar uma grande tristeza."
(Dostoiévski)

Dessa mistura temos uma combinação muito instigante.
Manter distancia desses seres adoráveis é uma decisão ainda mais inteligente.




A árvore ensina

Adão e Eva sempre remetem a esse texto.  Como deixar de provar se só assim é possível seguir em frente? 



...
Eu vi minha vida ramificando-se diante de mim como a figueira verde da história. 
Na ponta de cada galho, como um figo gordo e roxo, um futuro maravilhoso acenava e piscava. Um figo era um marido, um lar feliz e filhos, outro era uma poetisa famosa e consagrada, outro era uma professora brilhante, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro era Constantino e Sócrates e Átila e outros vários amantes com nomes exóticos e profissões excêntricas, outro ainda era uma campeã olímpica. 
E, acima de tais figos, havia muitos outros. Eu não conseguia prosseguir. Encontrei-me sentada na forquilha da figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia optar entre um dos figos. Eu gostaria de devorar a todos, mas escolher um significava perder todos os outros. Talvez querer tudo signifique não querer nada. 
Então, enquanto eu permanecia sentada, incapaz de optar, os figos começaram a murchar e escurecer e, um por um, despencar aos meus pés. 
(Sylvia Plath)

Pagu, minha querida

eu já sabia desde o início
por você eu iria sentir 
sangrar para transgredir
aprender e ultrapassar
é sentir demais para fazer sentido
faz frio e, ainda assim, preciso mergulhar
vísceras, carne exposta
meu corpo
estou diluindo sem futuro
noite, dia, que dia?
é tempinho e coisinhas
É tempo e coisas
(Adriana Lima)
.........
Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal (Patrícia Galvão)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Livro

Não sei o que faço com o arquivo do blog.
Desde 2001 escrevendo e salvando sentimentos e o Google não devolve minha conta.
Máquinas partindo meu coração desde a década de 90.
...
Não quero admitir, mas acho que encontrei a leitura perfeita para as minhas férias:
http://www.scribd.com/doc/6913389/Stanislav-e-Christina-Grof-Emergencia-Espiritual
Veio dele, justo dele, do meu querido super-não-sabe-onde-estará-no-natal-do-ano-que-vem.
Estou imaginando o mergulho em mim e o início do processo que gostaria muito que terminasse em 2014 no Ama Dablam.
Comprei Anna Karenina e, misturando, garanto que estou conseguindo VER TUDO!
Hoje fui em um centro de Yoga chamado Bliss.  Santa Sincronicidade!

O Ramayana aqui embaixo é pq estava correndo na praia e... encontrei o próprio!  Hoje, tudo é um sinal!


Zaratustra

ASSIM FALAVA ZARATUSTRA
Vós outros olhais para cima quando aspirais elevar-vos.
Eu, como estou alto, olho para baixo.
Qual de vós podeis estar alto e rir-vos ao mesmo tempo?
O que escala elevados montes ri-se de todas as tragédias da cena e da vida”.

O VIAJANTE

Era aproximadamente meia noite quando Zaratustra seguiu pelo cume da ilha para chegar de madrugada à ribeira, onde queria embarcar. Nesse lugar havia uma boa enseada onde costumavam ancorar também barcos estrangeiros, os quais recebiam a bordo alguns das Ilhas Bem-aventuradas que queriam atravessar o mar. Enquanto subia a montanha pensava Zaratustra nas muitas viagens solitárias que fizera desde a sua mocidade e nas muitas montanhas, cristas e cumieiras que escalara.
“Eu sou um viajante e um trepador de montanhas — disse de si para si — não me agradam as planícies, e parece que não posso estar muito tempo sossegado.
Ou seja porque o queira o meu destino ou a eventualidade que me espera, sempre uma viagem há de ser, para mim, uma ascensão: em suma, cada qual vive-se unicamente a si mesmo.
Passou o tempo em que poderiam sobrevir acasos, e que poderia suceder-me que já não me pertença?
O meu próprio ser está enfim de regresso, e quanto dele próprio andou durante muito tempo por estranhas terras e disperso entre todas as coisas e todas as contingências!
E sei mais alguma coisa; estou agora diante do meu último píncaro e do que me foi evitado durante mais tempo. Ai! tenho que seguir o meu caminho mais rigoroso! Começou a minha viagem mais solitária.
Quem é, porém, da minha condição, não se livra de semelhante hora, da hora que diz: “Só agora segues o teu caminho de grandeza! Até hoje tem-me confundido num só o cume e o abismo!
Segue o teu caminho de grandeza; veio agora a ser o teu último refúgio o que até aqui se chamou o teu último perigo! Segue o teu caminho de grandeza: a tua melhor animação é que agora não existem caminhos atrás de ti! Segue o teu caminho de grandeza: aqui ninguém há de ir em teu seguimento. Os teus próprios pés apagaram o caminho que deixas atrás de ti, e nele está escrito: “Impossibilidade”.
E se, mais adiante, te faltarem todas as escadas, será preciso saberes trepar sobre a tua própria cabeça; senão, como quererias subir mais alto? Sobre a tua própria cabeça e por cima do teu próprio coração. Agora o mais suave vai-se tornar para ti o mais duro.
Aquele que sempre cuidou muito de si, acaba por se tornar enfermiço com o excesso de cuidado. Bendido seja o que endurece! Não gabo o país onde fluem manteiga e mel!
Para ver muitas coisas precisamos aprender a olhar para longe de nós: esta dureza é necessária para todos os que escalam os montes. O que porém investiga, com olhos indiscretos, como poderia ver mais que o primeiro tempo das coisas?
Mas tu, Zaratustra, que querias ver todas as razões e o fundo das coisas, precisas passar por cima de ti mesmo, e ascender, ascender até as tuas próprias estrelas ficarem abaixo de ti!
“Sim! Ver-me a mim próprio, e até as minhas estrelas, olhando para baixo! Só isso chamo o meu cume; é esse o último cume que me falta escalar!”
Assim falava consigo Zaratustra enquanto subia, consolando o seu coração com duras máximas: porque, como nunca, tinha ferido o coração. E quando chegou ao alto da crista viu estender-se na sua frente o outro mar; ficou imóvel e calado por muito tempo. Naquela altura estava a noite fria e clara e estrelada.
“Reconheço a minha sorte” — disse afinal com tristeza. “Eia! Estou pronto! Começou agora a minha última soledade. Que mar tão negro e triste a meus pés! Que sombrio e noturno pesadelo! Ó! destino e oceano! É mister que eu agora desça para vós. Estou em frente da minha mais alta montanha e da minha mais longa viagem! por isso tenho que descer como nunca desci! Tenho que ir ao fundo da dor mais do que nunca, até as suas mais negras profundidades! Assim o quer o meu destino. Eia! Estou pronto! De onde vêm as mais elevadas montanhas? Isso perguntava eu noutro tempo. Soube então que vêm do mar. Este testemunho está escrito nas suas pedras e nas paredes das suas cristas. Desde o mais baixo há de o mais alto erguer o seu cume”.
Assim falava Zaratustra no píncaro da montanha onde reinava o frio, mas quando chegou perto do mar e se encontrou sozinho entre as rochas da margem, sentiu-se cansado do caminho e ainda mais cheio que dantes de ardentes desejos.
“Ainda dorme tudo — disse. Também o mar está adormecido. Dirige-me um olhar estranho e sonolento. A sua respiração, porém, é quente, sinto-o. E ao mesmo tempo vejo que sonha. Agita-se sonhando sobre duros almofadões. Escuta! Escuta! Quantos gemidos as más recordações lhe arrancam! Ou serão maus presságios? Ai! Estou triste contigo, monstro sombrio, e aborrecido comigo mesmo por tua causa. Ai! Porque não terá a minha mão bastante força? Quereria livrar-te dos sonhos maus!”
Falando desta forma Zaratustra ria de si mesmo com melancolia e amargura.
“Que, Zaratustra! — disse — ainda queres cantar consolações ao mar?
Ai, Zaratustra! Louco rico de amor, ébrio de confiança! Mas assim foste sempre, sempre te abeiraste familiarmente de todas as coisas terríveis. Querias acariciar todos os monstros. Um sopro de hálito quente, um tanto de branda velocidade nas garras e imediatamente estavas disposto a amar e a atrair. O amor — o amor a qualquer coisa — basta-lhe viver — é o perigo do mais solitário. Na verdade, prestam-se ao riso a minha loucura e a minha modéstia no amor”.
Assim falava Zaratustra, e pôs-se a rir outra vez; mas então pensou nos amigos que deixara, e como se houvesse pecado contra eles em pensamento, se enfadou consigo mesmo pelos seus pensamentos. E assim o riso mudou-se em pranto: Zaratustra chorou amargamente de cólera e de ansiedade.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Surpresa

O que pode alguém fazer quando tem trinta anos e, virando a esquina de repente, é tomado por um sentimento de absoluta felicidade — felicidade absoluta! — como se tivesse engolido um brilhante pedaço daquele sol da tardinha e ele estivesse queimando o peito, irradiando um pequeno chuveiro de chispas para dentro de cada partícula do corpo, para cada ponta de dedo?
(Katherine Mansfield)
Para a grande (frágil e fraca) surpresa do ano
A vida não prega peças(a gente vive de se enganar)Projeto, imagino o futuro, (é só fé, tenho que crer)faço com tanta força e em detalhes, que vira mundo!


Saber nomear o que não existe

ela se desnuda no paraíso 
de sua memória
ela desconhece o feroz destino
de suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe
...

Não,



as palavras
não fazem amor
fazem ausência
Se digo água, beberei?
Se digo pão, comerei?
(Alejandra Pizarnik)


O despertar

Acredito sempre que sou o controle, 
tenho sucesso, sucesso
Viro-me, vem o vento, o tempo
Que surpresa!
Coisa boa.
(Adriana Lima)


...
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e voou
e meu coração está louco
porque uiva para a morte
e sorri detrás do vento
para meus delírios

Que farei com o medo
Que farei com o medo

Já não dança a luz em meu sorriso
nem as estações queimam pombas em minhas idéias
Minhas mãos ficaram nuas
e foram aonde a morte
ensina os mortos a viver

Senhor
O ar me castiga o ser
Detrás do ar existem monstros
que bebem meu sangue

É o desastre
É a hora do vazio não vazio
É o instante de pôr ferrolho nos lábios
ouvir os condenados a gritar
contemplar cada um de meus nomes
enforcados no nada

Senhor
Tenho vinte anos
Também meus olhos têm vinte anos
e contudo não dizem nada

Senhor
Consumei minha vida num instante
A última inocência explodiu
Agora é o nunca jamais ou simplesmente foi

Por que não me suicido diante do espelho
e desapareço para reaparecer no mar
onde um grande barco me esperaria
com as luzes acesas?

Por que não extraio minhas veias
e faço com elas uma escada
para fugir ao outro lado da noite?

O princípio deu à luz o fim
Tudo continuará igual
Os sorrisos gastos
O interesse interessado
As gesticulações que arremedam o amor
Tudo continuará igual

Mas meus braços insistem em abraçar o mundo
Porque ainda não lhes ensinaram
que já é demasiado tarde

Senhor
Expulsa os féretros de meu sangue

Recordo minha infância
quando eu era uma anciã
As flores morriam em minhas mãos
porque a dança selvagem da alegria lhes destruía o coração
Recordo as negras manhãs de sol
quando era criança
quer dizer ontem
quer dizer faz séculos

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e devorou minhas esperanças

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
Que farei com o medo

(Alejandra Pizarnik)

alejandra pizarnik

Lá fora faz sol.
Não é mais que um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.

Eu não sei do sol.
Sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até a aurora
quando a morte pousa nua
em minha sombra.

Choro debaixo do meu nome.
Aceno lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Oculto cravos
para escarnecer meus sonhos enfermos.

Lá fora faz sol.
Eu me visto de cinzas.


40 graus de febre



Diabólico leopardo!
A radiação faz que ela embranqueça
E a extingue em uma hora.

Engordurar os corpos dos adúlteros
Tal qual as cinzas de Hiroshima e corroê-los.
O pecado. O pecado.

Querido, a noite inteira
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva.
Os lençóis opressivos como beijos de um devasso.

Três dias. Três noites.
água de limão, canja
Aguada, enjoa-me.

Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa Deus. Sou uma lanterna —

Minha cabeça uma lua
De papel japonês, minha pele de ouro laminado
Infinitamente delicada e infinitamente dispendiosa.

Não te assombra meu coração. E minha luz.
Eu sou, toda eu, uma enorme camélia
Esbraseada e a ir e vir, em rubros jorros.

Creio que vou subir,
Creio que posso ir bem alto —
As contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu

Sou uma virgem pura
De acetileno
Acompanhada de rosas,

De beijos, de querubins,
Do que venham a ser essas coisas rosadas.
Não tu, nem ele

Não ele, nem ele
(Eu toda a dissolver-me, anágua de puta velha) —
Ao Paraíso.


(Sylvia Plath)


Canção de Amor da Jovem Louca

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,

Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,

Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:

Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste

Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão

Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Sylvia Plath.



Sossega

    Sossega, coração! Não desesperes!
    Talvez um dia, para além dos dias,
    Encontres o que queres porque o queres.
    Então, livre de falsas nostalgias,
    Atingirás a perfeição de seres.
    Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
    Pobre esperança a de existir somente!
    Como quem passa a mão pelo cabelo
    E em si mesmo se sente diferente,
    Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
    Sossega, coração, contudo! Dorme!
    O sossego não quer razão nem causa.
    Quer só a noite plácida e enorme,
    A grande, universal, solene pausa
    Antes que tudo em tudo se transforme.
    (Fernando Pessoa, 2-8-1933.)
Meu lado certo
é o avesso

Sobre essas coisas que acontecem

(Dois ou três almoços, uns silêncios / Fragmentos disso que chamamos de “minha vida”)
Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector “Tentação” na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito joias encravadas no dia a dia.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
Caio Fernando Abreu
 (Publicada n’O Estado de S. Paulo, 22/4/1986).

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Em breve

Querida E.,
estou escrevendo da minha sala fria, pensando o quanto essa casa é florida, colorida, cheirosa e como eu consegui criar algo tão grande em tão pouco tempo. O tempo não é nada. 
Eu tinha uma xícara de chá ao lado, numa mesa. Parecia uma cena que eu já tinha vivido, mas nada era meu e agora é, e seu também, sem você ainda ter aparecido para mim. Minha mãe viu. Como sempre, ela viu. Você está tão presente que posso falar para você esperar um pouco mais.
Talvez eu tenha que te falar sobre impermanência, sobre fluir continuamente, diluir-se, até não sobrar nada, novamente. Quem sabe acordar do sonho que não sabemos se é bom? 
Despertar é experimentar o mundo real, que é sagrado e indestrutível.



Matei o blog.
Salvei alguns posts. Algo sempre sobrevive.