O tempo parou para eu escutar essa música e ser muito (atormentadamente) feliz.
sábado, 15 de junho de 2013
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Encontro
Sai de si
Vem curar teu mal
Te transbordo em som
Poe juizo em mim
Teu olhar me tirou daqui
Ampliou meu ser
Quero um pouco mais
Não tudo
Pra gente não perder a graça no escuro
No fundo
Pode ser até pouquinho
Sendo só pra mim sim
Vem curar teu mal
Te transbordo em som
Poe juizo em mim
Teu olhar me tirou daqui
Ampliou meu ser
Quero um pouco mais
Não tudo
Pra gente não perder a graça no escuro
No fundo
Pode ser até pouquinho
Sendo só pra mim sim
Olhe só
Como a noite cresce em glória
E a distância traz
Nosso amanhecer
Deixa estar que o que for pra ser vigora
Eu sou tão feliz
Vamos dividir
Como a noite cresce em glória
E a distância traz
Nosso amanhecer
Deixa estar que o que for pra ser vigora
Eu sou tão feliz
Vamos dividir
Os sonhos
Que podem transformar o rumo da história
Vem logo
Que o tempo voa como eu
Quando penso em você
Que podem transformar o rumo da história
Vem logo
Que o tempo voa como eu
Quando penso em você
Já projetei ser 6
Tornar-se amor
em cada pedaço do corpo
esquecer caminhos, buscar novas desculpas
para esquecer velhos caminhos
saber que não dá, não tem como
mas ir cada vez mais longe
quase até onde não tem mais ar para voltar
todo momento buscar um momento
ir, fugir, não tem pra onde
Talvez seja sorte não encontrar
não ver flores
não ter ideias
você ir
em cada pedaço do corpo
esquecer caminhos, buscar novas desculpas
para esquecer velhos caminhos
saber que não dá, não tem como
mas ir cada vez mais longe
quase até onde não tem mais ar para voltar
todo momento buscar um momento
ir, fugir, não tem pra onde
Talvez seja sorte não encontrar
não ver flores
não ter ideias
você ir
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Nuvem de lavanda
Hoje eu mergulhei em uma imensa nuvem de lavanda
Talvez eu nunca mais volte lá,
talvez ela venha para ficar
Quem sabe por dias e dias e dias, que valem mais que anos?
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Ainda o trem
você nunca vai saber
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade
pelo lado de dentro
como fazer de um verso
um objeto sujeito
como passar do presente
para o pretérito perfeito
nunca saber direito
você nunca vai saber
o que vem depois de sábado
quem sabe um século
muito mais lindo e mais sábio
quem sabe apenas
mais um domingo
você nunca vai saber
e isso é sabedoria
nada que valha a pena
a passagem pra pasárgada
xanadu ou shangrilá
quem sabe a chave
de um poema
e olha lá
(Leminski)
O trem
Era o tempo fora do tempo
Guardado em âmbar multicor
O tanto de sensações
Tão dobradas, tão azuis
Antigas mulheres dentro de mim
Sou eu por outros caminhos
todos os lados, do avesso, perfeito, humano
Era o tempo fora do tempo
Somente antes do trem
A dança no abismo
Guardada em resina e esperando
Tem tempo que não paro para o trem!
Esse não pode ser o meu
Tão guardado, esperado
Ele iria saber e voltar e voltar e olhar
Como lidar com as suas dúvidas tão certas?
O tempo do trem fora do tempo
Tem tempo que não vem o trem
Magro, inseguro, tem tempo que não passa o tempo
Vem verde, vermelho, passa o verde e não vem o trem
Posso pedir para ficar, para mudar, mas não passa
Que cheiro tem esse trem?
Guardado em âmbar multicor
O tanto de sensações
Tão dobradas, tão azuis
Antigas mulheres dentro de mim
Sou eu por outros caminhos
todos os lados, do avesso, perfeito, humano
Era o tempo fora do tempo
Somente antes do trem
A dança no abismo
Guardada em resina e esperando
Tem tempo que não paro para o trem!
Esse não pode ser o meu
Tão guardado, esperado
Ele iria saber e voltar e voltar e olhar
Como lidar com as suas dúvidas tão certas?
O tempo do trem fora do tempo
Tem tempo que não vem o trem
Magro, inseguro, tem tempo que não passa o tempo
Vem verde, vermelho, passa o verde e não vem o trem
Posso pedir para ficar, para mudar, mas não passa
Que cheiro tem esse trem?
sábado, 8 de junho de 2013
Saudação da Saudade
Fazia tempo que eu não sentia tanta saudade.
Talvez não ter vivido nada seja a causa de tanto desespero.
Minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida
Aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz
te trazer à luz
Ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento
Aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim
daí vá ficando por aí
Se por acaso a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido era remédio
daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando sempre
pensando se por acaso a gente se cruzasse...
(Alice Ruiz)
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido era remédio
daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando sempre
pensando se por acaso a gente se cruzasse...
(Alice Ruiz)
Milágrimas
Alice Ruiz e Itamar Assumpção são maravilhosos! Essa versão caseira-com-cachorro-mulher-grávida-e-pé-no-chão ficou uma coisa muito podia-ser-lá-em-casa. Saudades de um bom sarau! Será que nunca mais?
Milágrimas
em caso de dor ponha gelo
mude o corte de cabelo
mude como modelo
vá ao cinema dê um sorriso
ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
em caso de dor ponha gelo
mude o corte de cabelo
mude como modelo
vá ao cinema dê um sorriso
ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
se amargo foi já ter sido
troque já esse vestido
troque o padrão do tecido
saia do sério deixe os critérios
siga todos os sentidos
faça fazer sentido
a cada mil lágrimas sai um milagre
troque já esse vestido
troque o padrão do tecido
saia do sério deixe os critérios
siga todos os sentidos
faça fazer sentido
a cada mil lágrimas sai um milagre
caso de tristeza vire a mesa
coma só a sobremesa coma somente a cereja
jogue para cima faça cena
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre
coma só a sobremesa coma somente a cereja
jogue para cima faça cena
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre
mas se apesar de banal
chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal
sinta o gosto do sal
gota a gota, uma a uma
duas três dez cem mil lágrimas
sinta o milagre
a cada mil lágrimas sai um milagre
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre
chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal
sinta o gosto do sal
gota a gota, uma a uma
duas três dez cem mil lágrimas
sinta o milagre
a cada mil lágrimas sai um milagre
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre
(Alice Ruiz e Itamar Assumpção)
Suerte
Alguém que eu gosto muito, anda errando demais e eu não posso fazer nada.
Só me resta desejar...Suerte!
Sempre assim
"O sofrimento acompanha sempre uma inteligência elevada e um coração profundo. Os homens verdadeiramente grandes devem, parece-me, experimentar uma grande tristeza."
(Dostoiévski)
Dessa mistura temos uma combinação muito instigante.
Manter distancia desses seres adoráveis é uma decisão ainda mais inteligente.
(Dostoiévski)
Dessa mistura temos uma combinação muito instigante.
Manter distancia desses seres adoráveis é uma decisão ainda mais inteligente.
A árvore ensina
Adão e Eva sempre remetem a esse texto. Como deixar de provar se só assim é possível seguir em frente?
...
Eu vi minha vida ramificando-se diante de mim como a figueira verde da história.
Na ponta de cada galho, como um figo gordo e roxo, um futuro maravilhoso acenava e piscava. Um figo era um marido, um lar feliz e filhos, outro era uma poetisa famosa e consagrada, outro era uma professora brilhante, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro era Constantino e Sócrates e Átila e outros vários amantes com nomes exóticos e profissões excêntricas, outro ainda era uma campeã olímpica.
E, acima de tais figos, havia muitos outros. Eu não conseguia prosseguir. Encontrei-me sentada na forquilha da figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia optar entre um dos figos. Eu gostaria de devorar a todos, mas escolher um significava perder todos os outros. Talvez querer tudo signifique não querer nada.
Então, enquanto eu permanecia sentada, incapaz de optar, os figos começaram a murchar e escurecer e, um por um, despencar aos meus pés.
(Sylvia Plath)
...
Eu vi minha vida ramificando-se diante de mim como a figueira verde da história.
Na ponta de cada galho, como um figo gordo e roxo, um futuro maravilhoso acenava e piscava. Um figo era um marido, um lar feliz e filhos, outro era uma poetisa famosa e consagrada, outro era uma professora brilhante, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro era Constantino e Sócrates e Átila e outros vários amantes com nomes exóticos e profissões excêntricas, outro ainda era uma campeã olímpica.
E, acima de tais figos, havia muitos outros. Eu não conseguia prosseguir. Encontrei-me sentada na forquilha da figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia optar entre um dos figos. Eu gostaria de devorar a todos, mas escolher um significava perder todos os outros. Talvez querer tudo signifique não querer nada.
Então, enquanto eu permanecia sentada, incapaz de optar, os figos começaram a murchar e escurecer e, um por um, despencar aos meus pés.
(Sylvia Plath)
Pagu, minha querida
eu já sabia desde o início
por você eu iria sentir
sangrar para transgredir
aprender e ultrapassar
é sentir demais para fazer sentido
faz frio e, ainda assim, preciso mergulhar
vísceras, carne exposta
meu corpo
estou diluindo sem futuro
noite, dia, que dia?
é tempinho e coisinhas
É tempo e coisas
(Adriana Lima)
(Adriana Lima)
.........
Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal (Patrícia Galvão)
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal (Patrícia Galvão)
sexta-feira, 7 de junho de 2013
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Livro
Não sei o que faço com o arquivo do blog.
Desde 2001 escrevendo e salvando sentimentos e o Google não devolve minha conta.
Máquinas partindo meu coração desde a década de 90.
...
Não quero admitir, mas acho que encontrei a leitura perfeita para as minhas férias:
http://www.scribd.com/doc/6913389/Stanislav-e-Christina-Grof-Emergencia-Espiritual
Veio dele, justo dele, do meu querido super-não-sabe-onde-estará-no-natal-do-ano-que-vem.
Estou imaginando o mergulho em mim e o início do processo que gostaria muito que terminasse em 2014 no Ama Dablam.
Comprei Anna Karenina e, misturando, garanto que estou conseguindo VER TUDO!
Hoje fui em um centro de Yoga chamado Bliss. Santa Sincronicidade!
O Ramayana aqui embaixo é pq estava correndo na praia e... encontrei o próprio! Hoje, tudo é um sinal!
Desde 2001 escrevendo e salvando sentimentos e o Google não devolve minha conta.
Máquinas partindo meu coração desde a década de 90.
...
Não quero admitir, mas acho que encontrei a leitura perfeita para as minhas férias:
http://www.scribd.com/doc/6913389/Stanislav-e-Christina-Grof-Emergencia-Espiritual
Veio dele, justo dele, do meu querido super-não-sabe-onde-estará-no-natal-do-ano-que-vem.
Estou imaginando o mergulho em mim e o início do processo que gostaria muito que terminasse em 2014 no Ama Dablam.
Comprei Anna Karenina e, misturando, garanto que estou conseguindo VER TUDO!
Hoje fui em um centro de Yoga chamado Bliss. Santa Sincronicidade!
O Ramayana aqui embaixo é pq estava correndo na praia e... encontrei o próprio! Hoje, tudo é um sinal!
Zaratustra
ASSIM FALAVA ZARATUSTRA
“Vós outros olhais para
cima quando aspirais elevar-vos.
Eu, como estou alto, olho para baixo.
Qual de vós podeis estar alto e rir-vos ao mesmo tempo?
O que escala elevados montes ri-se de todas as tragédias da cena e da vida”.
O VIAJANTE
Era aproximadamente meia noite
quando Zaratustra seguiu pelo cume da ilha para chegar de madrugada à ribeira,
onde queria embarcar. Nesse lugar havia uma boa enseada onde costumavam ancorar
também barcos estrangeiros, os quais recebiam a bordo alguns das Ilhas
Bem-aventuradas que queriam atravessar o mar. Enquanto subia a montanha pensava
Zaratustra nas muitas viagens solitárias que fizera desde a sua mocidade e nas
muitas montanhas, cristas e cumieiras que escalara.
“Eu sou um viajante e um
trepador de montanhas — disse de si para si — não me agradam as planícies, e
parece que não posso estar muito tempo sossegado.
Ou seja porque o queira o meu
destino ou a eventualidade que me espera, sempre uma viagem há de ser, para
mim, uma ascensão: em suma, cada qual vive-se unicamente a si mesmo.
Passou o tempo em que poderiam sobrevir acasos, e que poderia suceder-me que já não me pertença?
O meu próprio ser está enfim
de regresso, e quanto dele próprio andou durante muito tempo por estranhas
terras e disperso entre todas as coisas e todas as contingências!
E sei mais alguma coisa; estou
agora diante do meu último píncaro e do que me foi evitado durante mais tempo.
Ai! tenho que seguir o meu caminho mais rigoroso! Começou a minha viagem mais
solitária.
Quem é, porém, da minha
condição, não se livra de semelhante hora, da hora que diz: “Só agora segues o
teu caminho de grandeza! Até hoje tem-me confundido num só o cume e o abismo!
Segue o teu caminho de
grandeza; veio agora a ser o teu último refúgio o que até aqui se chamou o teu
último perigo! Segue o teu caminho de
grandeza: a tua melhor animação é que agora não existem caminhos atrás de ti! Segue o teu caminho de grandeza:
aqui ninguém há de ir em teu seguimento. Os teus próprios pés apagaram o
caminho que deixas atrás de ti, e nele está escrito: “Impossibilidade”.
E se, mais adiante, te
faltarem todas as escadas, será preciso saberes trepar sobre a tua própria cabeça;
senão, como quererias subir mais alto? Sobre a tua própria cabeça e
por cima do teu próprio coração. Agora o mais suave vai-se tornar para ti o
mais duro.
Aquele que sempre cuidou muito
de si, acaba por se tornar enfermiço com o excesso de cuidado. Bendido seja o
que endurece! Não gabo o país onde fluem manteiga e mel!
Para ver muitas coisas precisamos
aprender a olhar para longe de nós: esta dureza é necessária para
todos os que escalam os montes. O que porém investiga, com
olhos indiscretos, como poderia ver mais que o primeiro tempo das coisas?
Mas tu, Zaratustra, que
querias ver todas as razões e o fundo das coisas, precisas passar por cima de
ti mesmo, e ascender, ascender até as tuas próprias estrelas ficarem abaixo de
ti!
“Sim! Ver-me a mim próprio, e
até as minhas estrelas, olhando para baixo! Só isso chamo o meu cume; é
esse o último cume que me falta escalar!”
Assim falava consigo
Zaratustra enquanto subia, consolando o seu coração com duras máximas: porque,
como nunca, tinha ferido o coração. E quando chegou ao alto da crista viu
estender-se na sua frente o outro mar; ficou imóvel e calado por muito tempo.
Naquela altura estava a noite fria e clara e estrelada.
“Reconheço a minha sorte” —
disse afinal com tristeza. “Eia! Estou pronto! Começou agora a minha última
soledade. Que mar tão negro e triste a
meus pés! Que sombrio e noturno pesadelo! Ó! destino e oceano! É mister que eu
agora desça para vós. Estou em frente da minha mais
alta montanha e da minha mais longa viagem! por isso tenho que descer como
nunca desci! Tenho que ir ao fundo da dor
mais do que nunca, até as suas mais negras profundidades! Assim o quer o meu
destino. Eia! Estou pronto! De onde vêm as mais elevadas
montanhas? Isso perguntava eu noutro tempo. Soube então que vêm do mar. Este testemunho está escrito
nas suas pedras e nas paredes das suas cristas. Desde o mais baixo há de o mais
alto erguer o seu cume”.
Assim falava Zaratustra no
píncaro da montanha onde reinava o frio, mas quando chegou perto do mar e se
encontrou sozinho entre as rochas da margem, sentiu-se cansado do caminho e
ainda mais cheio que dantes de ardentes desejos.
“Ainda dorme tudo — disse.
Também o mar está adormecido. Dirige-me um olhar estranho e sonolento. A sua respiração, porém, é
quente, sinto-o. E ao mesmo tempo vejo que sonha. Agita-se sonhando sobre duros
almofadões. Escuta! Escuta! Quantos
gemidos as más recordações lhe arrancam! Ou serão maus presságios? Ai! Estou triste contigo,
monstro sombrio, e aborrecido comigo mesmo por tua causa. Ai! Porque não terá a minha
mão bastante força? Quereria livrar-te dos sonhos maus!”
Falando desta forma Zaratustra
ria de si mesmo com melancolia e amargura.
“Que, Zaratustra! — disse —
ainda queres cantar consolações ao mar?
Ai, Zaratustra! Louco rico de
amor, ébrio de confiança! Mas assim foste sempre, sempre te abeiraste
familiarmente de todas as coisas terríveis. Querias acariciar todos os
monstros. Um sopro de hálito quente, um tanto de branda velocidade nas garras e
imediatamente estavas disposto a amar e a atrair. O amor — o
amor a qualquer coisa — basta-lhe viver — é o perigo do mais
solitário. Na verdade, prestam-se ao riso a minha loucura e a minha modéstia no
amor”.
Assim falava Zaratustra, e
pôs-se a rir outra vez; mas então pensou nos amigos que deixara, e como se
houvesse pecado contra eles em pensamento, se enfadou consigo mesmo pelos seus
pensamentos. E assim o riso mudou-se em pranto: Zaratustra chorou amargamente
de cólera e de ansiedade.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Surpresa
O que pode alguém fazer quando tem trinta anos e, virando a esquina de repente, é tomado por um sentimento de absoluta felicidade — felicidade absoluta! — como se tivesse engolido um brilhante pedaço daquele sol da tardinha e ele estivesse queimando o peito, irradiando um pequeno chuveiro de chispas para dentro de cada partícula do corpo, para cada ponta de dedo?
(Katherine Mansfield)Para a grande (frágil e fraca) surpresa do ano
A vida não prega peças(a gente vive de se enganar)Projeto, imagino o futuro, (é só fé, tenho que crer)faço com tanta força e em detalhes, que vira mundo!
O despertar
Acredito sempre que sou o controle,
tenho sucesso, sucesso
Viro-me, vem o vento, o tempo
Que surpresa!
Coisa boa.
(Adriana Lima)
...
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e voou
e meu coração está louco
porque uiva para a morte
e sorri detrás do vento
para meus delírios
Que farei com o medo
Que farei com o medo
Já não dança a luz em meu sorriso
nem as estações queimam pombas em minhas idéias
Minhas mãos ficaram nuas
e foram aonde a morte
ensina os mortos a viver
Senhor
O ar me castiga o ser
Detrás do ar existem monstros
que bebem meu sangue
É o desastre
É a hora do vazio não vazio
É o instante de pôr ferrolho nos lábios
ouvir os condenados a gritar
contemplar cada um de meus nomes
enforcados no nada
Senhor
Tenho vinte anos
Também meus olhos têm vinte anos
e contudo não dizem nada
Senhor
Consumei minha vida num instante
A última inocência explodiu
Agora é o nunca jamais ou simplesmente foi
Por que não me suicido diante do espelho
e desapareço para reaparecer no mar
onde um grande barco me esperaria
com as luzes acesas?
Por que não extraio minhas veias
e faço com elas uma escada
para fugir ao outro lado da noite?
O princípio deu à luz o fim
Tudo continuará igual
Os sorrisos gastos
O interesse interessado
As gesticulações que arremedam o amor
Tudo continuará igual
Mas meus braços insistem em abraçar o mundo
Porque ainda não lhes ensinaram
que já é demasiado tarde
Senhor
Expulsa os féretros de meu sangue
Recordo minha infância
quando eu era uma anciã
As flores morriam em minhas mãos
porque a dança selvagem da alegria lhes destruía o coração
Recordo as negras manhãs de sol
quando era criança
quer dizer ontem
quer dizer faz séculos
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e devorou minhas esperanças
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
Que farei com o medo
(Alejandra Pizarnik)
tenho sucesso, sucesso
Viro-me, vem o vento, o tempo
Que surpresa!
Coisa boa.
(Adriana Lima)
...
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e voou
e meu coração está louco
porque uiva para a morte
e sorri detrás do vento
para meus delírios
Que farei com o medo
Que farei com o medo
Já não dança a luz em meu sorriso
nem as estações queimam pombas em minhas idéias
Minhas mãos ficaram nuas
e foram aonde a morte
ensina os mortos a viver
Senhor
O ar me castiga o ser
Detrás do ar existem monstros
que bebem meu sangue
É o desastre
É a hora do vazio não vazio
É o instante de pôr ferrolho nos lábios
ouvir os condenados a gritar
contemplar cada um de meus nomes
enforcados no nada
Senhor
Tenho vinte anos
Também meus olhos têm vinte anos
e contudo não dizem nada
Senhor
Consumei minha vida num instante
A última inocência explodiu
Agora é o nunca jamais ou simplesmente foi
Por que não me suicido diante do espelho
e desapareço para reaparecer no mar
onde um grande barco me esperaria
com as luzes acesas?
Por que não extraio minhas veias
e faço com elas uma escada
para fugir ao outro lado da noite?
O princípio deu à luz o fim
Tudo continuará igual
Os sorrisos gastos
O interesse interessado
As gesticulações que arremedam o amor
Tudo continuará igual
Mas meus braços insistem em abraçar o mundo
Porque ainda não lhes ensinaram
que já é demasiado tarde
Senhor
Expulsa os féretros de meu sangue
Recordo minha infância
quando eu era uma anciã
As flores morriam em minhas mãos
porque a dança selvagem da alegria lhes destruía o coração
Recordo as negras manhãs de sol
quando era criança
quer dizer ontem
quer dizer faz séculos
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e devorou minhas esperanças
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
Que farei com o medo
(Alejandra Pizarnik)
alejandra pizarnik
Lá fora faz sol.
Não é mais que um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.
Eu não sei do sol.
Sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até a aurora
quando a morte pousa nua
em minha sombra.
Choro debaixo do meu nome.
Aceno lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Oculto cravos
para escarnecer meus sonhos enfermos.
Lá fora faz sol.
Eu me visto de cinzas.
40 graus de febre
Diabólico leopardo!
A radiação faz que ela embranqueça
E a extingue em uma hora.
Engordurar os corpos dos adúlteros
Tal qual as cinzas de Hiroshima e corroê-los.
O pecado. O pecado.
Querido, a noite inteira
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva.
Os lençóis opressivos como beijos de um devasso.
Três dias. Três noites.
água de limão, canja
Aguada, enjoa-me.
Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa Deus. Sou uma lanterna —
Minha cabeça uma lua
De papel japonês, minha pele de ouro laminado
Infinitamente delicada e infinitamente dispendiosa.
Não te assombra meu coração. E minha luz.
Eu sou, toda eu, uma enorme camélia
Esbraseada e a ir e vir, em rubros jorros.
Creio que vou subir,
Creio que posso ir bem alto —
As contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu
Sou uma virgem pura
De acetileno
Acompanhada de rosas,
De beijos, de querubins,
Do que venham a ser essas coisas rosadas.
Não tu, nem ele
Não ele, nem ele
(Eu toda a dissolver-me, anágua de puta velha) —
Ao Paraíso.
(Sylvia Plath)
Canção de Amor da Jovem Louca
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)
Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Sylvia Plath.
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)
Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Sylvia Plath.
Sossega
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
(Fernando Pessoa, 2-8-1933.)
Sobre essas coisas que acontecem
(Dois ou três almoços, uns silêncios / Fragmentos disso que chamamos de “minha vida”)
Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector “Tentação” na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito joias encravadas no dia a dia.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
Caio Fernando Abreu
(Publicada n’O Estado de S. Paulo, 22/4/1986).
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Em breve
Querida E.,
estou escrevendo da minha sala fria, pensando o quanto essa casa é florida, colorida, cheirosa e como eu consegui criar algo tão grande em tão pouco tempo. O tempo não é nada.
Eu tinha uma xícara de chá ao lado, numa mesa. Parecia uma cena que eu já tinha vivido, mas nada era meu e agora é, e seu também, sem você ainda ter aparecido para mim. Minha mãe viu. Como sempre, ela viu. Você está tão presente que posso falar para você esperar um pouco mais.
Talvez eu tenha que te falar sobre impermanência, sobre fluir continuamente, diluir-se, até não sobrar nada, novamente. Quem sabe acordar do sonho que não sabemos se é bom?
Despertar é experimentar o mundo real, que é sagrado e indestrutível.
Matei o blog.
Salvei alguns posts. Algo sempre sobrevive.
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